Música de dia chuvoso: Kings of Convenience


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Um showzinho de uma das minhas bandas preferidas, Kings of Convenience, em Paris, para deixar tocando como música de fundo nos dias de trabalho repetitivo.


Sobre chuvas e mudanças


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É hora de retomar o Ler para Contar. Nada mais justifica minha ausência. Nas últimas semanas, envelheci décadas, envolvida com projetos que concentravam o cerne dos meus objetivos profissionais: o concurso de professor efetivo da Universidade Federal do Ceará e a conclusão do doutorado, com a defesa da tese. Passou. Tudo correu bem. É iniciada uma nova fase: a fase de quem não está na expectativa do que vai chegar, mas na vivência concreta do que era esperado e chegou.
Escrevo de um lugar privilegiado de paz e recolhimento: uma praia semi-deserta, sentada à uma confortável mesa de madeira, protegida de uma chuvinha fina que insiste em cobrir o mar desde cedo. Meia dúzia de pessoas veio assistir ao pôr-do-sol na duna que salta da terra à minha frente: voltarão, um pouco frustradas, para suas casas. Hoje o que temos é água, um céu pesado e cinzento e um ventinho frio e úmido. E sou grata à natureza por esse clima: o que pode ser mais calmante do que o ruído da água que cai sobre as folhas, os tons violáceos de um dia chuvoso e triste?
Sinto que, de certo modo, é como se muito tempo tivesse se passado desde que escrevi aqui na última vez. Foram algumas poucas semanas, mas um nível de transformação se deu, no plano espiritual, ou mental, eu diria. O efeito de uma segurança, uma calma, que tem a ver com a crença de que minhas amarras estão cedendo, inclusive para a criação: o que me impede de tentar? A literatura, um apanhado de palavras pretensamente artísticas, um ensaio que seja de novo e transformador.
 É isso, amigos, estou de volta, na leitura inicial do romance A Última Convidada, do escritor maranhense Josué Montello. Boa semana a todos.
 
Imagem via leoninadigital.blogspot.com

Paris no fim do dia...


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Paris é a cidade Luz, celebrada por poetas e artistas como a capital da beleza, do amor e do encantamento. É uma festa permanente, dinâmica, “ambulante”, como diria Hemingway. Reduto da arte, a “república das letras”, Paris recebeu nas décadas de 20 e 30 do século XX centenas de filósofos, escritores, pintores interessados em viver a experiência parisiense. Deixo hoje um breve trecho de uma carta de Julio Cortázar, escrita em Paris, publicada no número 9 da revista literária Serrote.
 

 

Não pense que estou triste, Paris é tão bonita! Aqui até a tristeza vira uma atividade estética. De maneira que talvez eu esteja triste, mas estou aprendendo a depositar essa melancolia nas muitas coisas belas que me rodeiam. Gostaria de poder mostrar a você, por exemplo, um entardecer na pont du Carrousel. Eu estava vindo do Louvre com uma amiga e paramos para olhar a Notre-Dame, ao longe, em meio a uma bruma azul. Então, em menos de um minuto, aconteceu o milagre, a loucura absoluta. Os lampiões a gás se acenderam de repente, e a pedra dos parapeitos, por uma misteriosa mistura de ar e luz, ficou intensamente rosa. Nós a olhávamos, mudos. Então vimos que a proa da cité e os edifícios distantes tinham passado instantaneamente para um violeta profundo, e ao mesmo tempo o rio estava verde, um verde cheio de ouro. Eu fechei os olhos, desesperado ao perceber que aquilo não podia durar, que aquela coisa veneziana ia se degradar instantaneamente e se perder...Mas durou, dois ou três minutos, tempo suficiente para ver as primeiras estrelas subindo ao céu.

Sal, verde e sol


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Meio-dia. Uma manhã de sol inclemente, dia claro, essa luz de Fortaleza que cega os olhos e vira os juízos mais sensíveis quando está muito quente e já não se é capaz de lembrar o último dia de chuva, com sua luz leitosa e aura úmida. Meio de semana, o tédio, a rotina-de-todos-os-dias, o cansaço de ser sempre a mesma, fazendo as mesmas coisas, o mesmo penteado, a sequência de sorrisos e palavras, a irritação no entre-ato. Até que chega aquele convite, meio tímido, culpado: vamos almoçar na praia?

A praia.

São dez ou oito minutos de carro, sem trânsito, o espaço-tempo do destino habitual do almoço. Por que não? Troca-se a roupa séria por um biquini, uma camada de protetor, um suspiro profundo e nos vamos, achando muito sério ir ao encontro do mar em dia útil.

O mar estava lá. Imensidão de verde-água. Mais claro, mais bravio que nunca. Um vai-e-vem violento de ondas, uma quase ressaca, uma água mexida de mar livre, sem banhistas, só um ou outro tímido desavisado, turista-fora-de-época, ou fugitivos, como nós, em busca de sossego e natureza.

 O banho foi alegre, cheio de surpresas: que delícia que é a água do meio-dia! A água das advertências dermatológicas, porque, enfim, o sol aprendeu a matar. Mas em dia útil o sol também descansa, me perdoem os médicos, mas banho de meio-dia, vez ou outra, é fundamental. É quando o mundo é pura cor, a água cristalina, luz forte contra água, os pés aumentados, afundados na areia, o gosto salgado que fica na pele. Um banho em dia útil. Banho de sal, de mar, de revolta. Um banho de libertação.
 

Retour avec Piaf


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Não, eu não abandonei o Ler para Contar. Eu simplesmente não encontrei, dentro de mim, nada digno de ser postado nos últimos dias. Passou-se um mês de aulas. Até agora, tudo parece transcorrer calmamente, como se o mundo das coisas concretas me desse uma oportunidade de esquecer o que é a ansiedade.
Hoje foi um dia atípico em relação à rotina das semanas passadas: fiquei em casa, dedicada a estudar uma questão específica para um exame. Um turbilhão de estímulos, leituras e projetos. Até que desisti de ser essa Juliana-dedicada-ao-futuro por hoje. Estou sozinha em casa, apenas meu companheirinho ronronante e peludo por perto, me convidando para brincar. Desliguei o computador, deixei a escrivaninha repleta de papeis e livros, apaguei a luz sem cuidar da desordem (que avanço!) e vim me refugiar na sala, à meia-luz, uma velinha com cheiro de canela, a voz da Edith Piaf na vitrola, papel e caneta (sim, este é um post escrito à moda antiga, no ritmo lento da escrita manual).
Neste exato instante, a voz “tremeluzente” de Piaf canta “Johnny, tu n’es pas un ange”. Musiquinha divertida sobre uma mulher que flerta com o perigo do seu amante-diabinho. “Johnny, ne croit pas que ça me dérange”. As mulheres parecem todas nascer para o perigo.
Uma lua de poema de amor, uma música que faz sentir saudade da cidade mais linda do mundo e o desejo de encontrar alguma ordem neste caótico estado de emoções que é o meu espírito. Este é o meu (nada) triunfante retorno.
Acho melhor ficar com a atmosfera onírica de uma música que canta as imensas possibilidades da beleza que é Paris. Afinal, “sous le ciel de Paris tout peut s’arranger”.

Hoje à noite é Paris em meu pensamento.

*Post escrito às 23 e pouco da noite de 1º de março, no papel, porque era preciso esquecer o brilho da tela por algumas horas.

Samba do Juca


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Vamos começar nossa programação carnavalesca com uma música do Chico Buarque. Afinal, amar é crime e sambar é pecado? Bom carnaval, amigos!


Amor perfumado e musical: Manoel de Barros


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Gorjeios
Manoel de Barros

Gorjeio é mais bonito do que canto porque nele se
inclui a sedução.
É quando a pássara está namorada que ela gorjeia.
Ela se enfeita e bota novos meneios na voz.
Seria como perfumar-se a moça para ver o namorado.
É por isso que as árvores ficam loucas se estão gorjeadas.
É por isso que as árvores deliram.
Sob o efeito da sedução da pássara as árvores deliram.
E se orgulham de terem sido escolhidas para o concerto.
As flores dessas árvores depois nascerão mais perfumadas.